“A caneca de Moscow Mule pode estar te envenenando” – Gazeta do Povo

 

 

Um clássico dos anos 50, Moscow Mule – o drinque da canequinha – foi tendência no último verão brasileiro e, ao que tudo indica, mantem-se como o queridinho dos bares e baladas.

Mas uma notícia publicada por um dos principais jornais de Curitiba pode acabar com a festa de quem entrou nesta moda. Em agosto, uma matéria do jornal Gazeta do Povo teve como manchete a seguinte frase:  A caneca de cobre do Moscow Mule pode estar te envenenando.

 

Será? Drops decidiu checar esta notícia.

 

Contexto

A história dos perigos relacionados ao Moscow Mule surgiu após a decisão do governo do estado de Iowa (EUA) ter divulgado um boletim informativo no qual diz que:

“Iowa, bem como muitos outros estados, adotaram o Food Code da FDA (Food and Drug Administration) que proíbe o cobre de entrar em contato direto com alimentos com um pH abaixo de 6.0. Exemplos de alimentos com um pH abaixo de 6.0 incluem vinagre, suco de frutas ou vinho. O pH do drink Moscow Mule tradicional está bem abaixo de 6.0. Isso significa que as canecas de cobre que têm seu interior também em cobre não podem ser usadas para server esta bebida.”

A repercussão nos noticiários norte-americanos foi imediatamente sentida logo após a publicação do boletim. Washington Post e CBS são alguns dos veículos que deram voz a esta notícia.

 O que diz a ciência

Duas referências são citadas pela matéria ao apontar a possibilidade de “envenenamento” no consumo do Moscow Mule: a agência americana FDA (Food and Drug Administration) e a sua correlata brasileira ANVISA (agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria).

Começando pela menção a FDA a reportagem diz que “a agência federal dos Estados Unidos, Food and Drug Administration, alertou sobre o perigo de colocar bebidas ácidas em contato com o metal. Segundo as autoridades norte-americanas, o material pode envenenar”.

Drops consultou a FDA e confirmou as informações em um documento de 2013 chamado Food Code no qual a entidade afirma que:

“As altas concentrações de cobre são venenosas e causam doenças transmitidas através de alimentos. Quando o cobre ou a superfície de cobre entra em contato com alimentos ácidos, o cobre pode ser liberado na comida”.

Já a outra referência citada na reportagem é a ANVISA. Segundo a matéria, uma resolução do órgão datada de 2007 estabelece que:

“…recipientes de cobre podem ser usados para servir bebidas ou comidas desde que sejam revestidos com  ouro, prata, níquel ou estanho para impedir modificação na composição dos alimentos.

O cobre é um micronutriente essencial e efeitos adversos à saúde são relacionadas tanto à deficiência quanto ao excesso. Os efeitos relacionados ao excesso desse nutriente são: gosto metálico, dor epigástrica (dor na parte alta e central do abdômen), dor de cabeça, náuseas, tonturas, vômitos e diarreia, taquicardia, dificuldade respiratória, anemia hemolítica, hematúria (sangue na urina), hemorragia digestiva maciça, insuficiência renal, insuficiência hepática e morte.”

Ou seja, a reportagem está correta ao citar as duas agências oficiais e suas declarações de que a combinação de bebidas ácidas e canecas revestidas de cobre pode contaminar bebidas e possivelmente intoxicar os consumidores.

No entanto, alguns questionamentos importantes não foram feitos:

  • As canecas de cobre usadas no Brasil costumam ser revestidas por outros metais ou são 100% feitas com cobre?
  • O contato do drinque com o cobre faz com que a contaminação seja imediata ou ela acontece após um determinado período de tempo?
  • Se a contaminação realmente ocorrer qual quantidade de bebida deveria ser consumida em média para que houvessem efeitos à saúde?

Drops buscou a resposta para estas perguntas nas bases de dados da Cochrane, PubMed e Google Acadêmico e não encontrou estudos qualificados que contenham estas informações.

 Resultado da checagem

O título da matéria é verdadeiro, mas é necessária uma contextualização da afirmação “a caneca de cobre do Moscow Mule pode estar te envenenando” com a inclusão de informações adicionais  afim de que a matéria efetivamente informe o público e não apenas gere alarde.

 

 

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