As 10 novas terapias alternativas do SUS são eficazes?

Esta semana o Ministério da Saúde brasileiro anunciou a incorporação de 10 novos procedimentos de saúde complementar oferecidos pelo SUS.

De acordo com o governo, a oferta destas práticas é justificada por evidências científicas que comprovam seus benefícios à saúde dos pacientes. Mas, o Conselho Federal de Medicina discorda e diz que a ciência não comprova a eficácia destas terapias.

O que realmente diz a ciência?  Será que ela comprova que estes procedimentos da medicina alternativa funcionam? Drops checou!

 

QUEM DISSE? Ministério da Saúde

O QUE DISSE? Evidências científicas têm mostrado os benefícios do tratamento integrado entre medicina convencional e práticas integrativas e complementares

QUANDO DISSE? 12/03/18

CHECAGEM: FALSO

A Drops concluiu que a não existem evidências robustas suportando a aplicação das terapias alternativas incluídas recentemente no SUS. Até então, os resultados obtidos com essas terapias são negativos, ou na melhor das hipóteses, inconclusivos. Na nossa pesquisa, encontramos alguns temas recorrentes à essas intervenções: a falta de estudos científicos; pesquisas de baixa qualidade, que não usam os controles adequados; e efeitos similares aos obtidos com placebos.

 

CONTEXTO

Na última segunda feira, dia 12/3, o Ministério da Saúde brasileiro anunciou a incorporação de 10 novos procedimentos que são agora oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). As práticas somam-se a outros 19 tratamentos que já faziam parte da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), o que conhecemos como “medicina alternativa”.

De acordo com o Ministério da Saúde, a oferta destas práticas é justificada por evidências científicas que comprovam seus benefícios à saúde dos pacientes, opinião não compartilhada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), que publicou uma nota dizendo que tais práticas não apresentam resultado e eficácia comprovadas.

Mas o que realmente diz a ciência? Drops checou!

 

O QUE DIZ A CIÊNCIA

Para conferir quais tratamento realmente são eficazes e seguros Drops trabalhou com dados da medicina baseada em evidências.

Consideramos assim apenas evidências científicas – e não relatos ou experiências individuais – para avaliar os potenciais benefícios à saúde de cada um dos 10 procedimentos aprovados pelo Ministério da Saúde.

A conclusão de nossa checagem é que as 10 práticas que agora integram o SUS não encontram respaldo na ciência médica. Ou seja, a afirmação  Evidências científicas têm mostrado os benefícios do tratamento integrado entre medicina convencional e práticas integrativas e complementares é FALSA.

*Entramos em contato com a Assessoria de Imprensa do Ministério da Saúde a fim de saber quais seriam as evidências científicas mencionadas pelo órgão. No entanto, até o fechamento desta matéria não tivemos retorno.

ATUALIZAÇÃO:No dia 23/03/18, as 17h47, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde enviou um e-mail a editoria da Drops no qual  esclarece a adoção das novas práticas integrativas citadas nesta reportagem. A resposta completa do Ministério da Saúde pode ser lida aqui.

 

VEJA ABAIXO DETALHES DO QUE ENCONTRAMOS SOBRE CADA UMA DAS 10 PRÁTICAS APROVADAS PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE

1. Apiterapia – método que utiliza produtos produzidos pelas abelhas nas colmeias como a apitoxina, geléia real, pólen, própolis, mel e outros.

Apesar da origem milenar desta terapia, nossa busca não encontrou nenhuma publicação científica que aponte a eficácia da apiterapia, o que coincide com artigo do site Science Based Medicine. No próprio site da Sociedade Americana de Apiterapia o tratamento é apontado como  uma prática experimental. Vale mencionar que já em 2013 um parecer emitido a pedido do Conselho Regional de Medicina do Paraná concluiu que “a apiterapia, por não estar embasada em evidências científicas não tem o seu uso reconhecido pelos Conselhos Regionais e Federal de Medicina”.

2. Aromaterapia – uso de concentrados voláteis extraídos de vegetais, os óleos essenciais promovem bem estar e saúde.

O uso de óleos essenciais não é algo incomum e as indicações de uso para cada um deles é vasta. No entanto, uma revisão sistemática da literatura sobre o tema aromaterapia apontou que os efeitos da aromaterapia não são suficientemente fortes para que a prática seja considerada um tratamento. Apesar de de alguns estudos talvez apontarem para benefícios, muitos outros (como este, este e este) mostram que a aromaterapia não obteve os efeitos esperados e que as pesquisas sobre sua eficácia ainda são limitadas.

3. Bioenergética – visão diagnóstica aliada à compreensão do sofrimento/adoecimento, adota a psicoterapia corporal e exercícios terapêuticos. Ajuda a liberar as tensões do corpo e facilita a expressão de sentimentos.

Apesar da busca em diferentes sites de informação científica (Cochrane, Medscape, PubMed, Science Based Medicine, Google Acadêmico entre outros), não encontramos literatura nacional ou internacional que forneça referências sobre a prática da  bioenergética.

4. Constelação familiar – técnica de representação espacial das relações familiares que permite identificar bloqueios emocionais de gerações ou membros da família.

Apesar da busca em diferentes sites de informação científica (Cochrane, Medscape, PubMed, Science Based Medicine, Google Acadêmico entre outros), não encontramos literatura nacional ou internacional que forneça referências sobre a prática da  constelação familiar.

5. Cromoterapia – utiliza as cores nos tratamentos das doenças com o objetivo de harmonizar o corpo.

A utilização das cores no tratamento de prevenção de doenças é citada em alguns artigos acadêmicos, por exemplo este, que apontam para resultados positivos da terapia. No entanto, a afirmação de que o uso de cor em tratamentos de saúde é eficaz foi revisada em 2004 por um completo estudo da Coalition for Health Environments Research, que chegou a conclusão de que a prática não está baseada em pesquisas e evidências científicas significativas.

6. Geoterapia – uso da argila com água que pode ser aplicada no corpo. Usado em ferimentos, cicatrização, lesões, doenças osteomusculares.

Uma análise dos estudos testando o efeito da aplicação da argila em pacientes com osteoartrite do joelho indicou que o tratamento pode trazer algum alívio aos pacientes. Já uma outra análise sistemática, mais recente, concluiu a que a geoterapia não foi eficiente em aliviar a osteoartrite. Ambos artigos apontam que estudos com melhor metodologia são necessários para determinar se essa terapia pode ser eficiente e em quais condições.

7. Hipnoterapia – conjunto de técnicas que pelo relaxamento, concentração induz a pessoa a alcançar um estado de consciência aumentado que permite alterar comportamentos indesejados.
Ao avaliar análises da literatura como esta e esta, vimos que há uma possibilidade que a hipnoterapia tenha algum efeito positivo no tratamento de alguns sintomas específicos. No entanto, ambas revisões citam como limitação a baixa qualidade metodológica dos estudos avaliados. Como afirma o site Science Based Medicine, são necessários mais estudos clínicos de boa qualidade para responder definitivamente se esta terapia é eficaz.

8. Imposição de mãos – cura pela imposição das mãos próximo ao corpo da pessoa para transferência de energia para o paciente. Promove bem estar, diminui estresse e ansiedade.

Em 1998, um estudo ganhou fama mostrando que os praticantes de imposição de mãos não conseguiam detectar um campo energético humano. Os praticantes ficavam de um lado de uma barreira, passando suas mãos por um vão. O pesquisador então pedia para que o suposto ‘terapeuta’ identificasse qual mão estava sobre a mão do pesquisador. Cada sujeito foi testado 10 ou 20 vezes. Os resultados foram um pouco piores do que se obteria jogando uma moeda: os praticantes erraram 56% das vezes. Em 2007, o grupo Cochrane não encontrou estudos clínicos metodologicamente corretos testando o efeito da imposição de mãos em distúrbios de ansiedade. Mais recentemente, em 2016, o mesmo grupo retratou uma avaliação sistemática sobre a imposição de mãos na cura de ferimentos agudos, reportando preocupações com a validade dos estudos analisados. Os resultados iniciais também haviam sido inconclusivos.

9. Ozonioterapia – mistura dos gases oxigênio e ozônio por diversas vias de administração com finalidade terapêutica e promove melhoria de diversas doenças. Usado na odontologia, neurologia e oncologia.

Encontramos na literatura duas revisões de estudos sobre a Ozonioterapia. Ambas as revisões, disponíveis aqui e aqui, concluem que as evidências disponíveis sobre a prática da ozonioterapia apresentam metodologia pouco clara e informação insuficiente para que eficácia deste tipo de terapia seja comprovada. Em outra revisão sobre a ozonioterapia a conclusão é de que são ainda necessários outros estudos para tornar este tratamento viável.

10. Terapia de Florais – uso de essências florais que modifica certos estados vibratórios. Auxilia no equilíbrio e harmonização do indivíduo

A terapia que utiliza essências florais é relativamente popular e conhecida. Em nossa pesquisa, encontramos uma revisão sistemática publicada em 2010 na qual o autor consultou 5 bases de dados e avaliou todos os ensaios clínicos disponíveis. Ao final do trabalho sua conclusão foi de que os ensaios clínicos mais confiáveis ​​não apresentaram diferenças entre remédios florais e placebos. Um artigo de 2012 do site Science Based Medicine avaliou as informações disponíveis sobre terapia de florais e também concluiu que não existem evidências científicas que suportem sua eficácia.

 

 

 

 

 

 

 

Fontes:
Ministério da Saúde –  http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2018/marco/12/Praticas-Integrativas.pdf – acesso em 15/3/18
Ministério da Saúde – http://portalms.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/42737-ministerio-da-saude-inclui-10-novas-praticas-integrativas-no-sus – acesso em 15/3/18
Conselho Federal de Medicina – http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=27485:2018-03-13-20-08-31&catid=3 – acesso em 15/3/18
Science Based Medicine – https://sciencebasedmedicine.org/bee-venom-therapy-grassroots-medicine/ – acesso em 15/3/18
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Science Based Medicine – https://sciencebasedmedicine.org/bach-flower-remedies/ – Acesso em 15/03/18

 

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