“Refrigerante dietético triplica risco de AVC e demência, segundo estudo” – Portal UOL

O brasileiro consumiu em 2016 uma média 70 litros de refrigerante per capita. Há alguns meses atrás uma manchete do portal UOL acendeu o sinal de alerta para parte destes consumidores: “Refrigerante dietético triplica risco de AVC e demência, segundo estudo”.

A mesma notícia, com outros títulos, também foi publicada pelos sites da Época Negócios, BBC Brasil, Revista Veja , portal G1, entre outros.

 

Adoçantes são sempre um tema controverso dentro do universo da alimentação e por isso Drops decidiu checar esta notícia.

O Contexto

A história surgiu após a divulgação de um estudo científico feito por pesquisadores da Universidade de Boston e publicado pelo periódico Stroke, publicação da American Heart Association.

O Estudo

O trabalho intitulado “Bebidas doces e artificialmente adoçadas e o risco de incidência de derrame e demência” foi realizado através de um estudo de corte prospectivo, no qual um grupo de pessoas que compartilha uma característica ou experiência comum é acompanhado por um período significativo de tempo (geralmente de 1 a 5 anos) e tenta-se estabelecer um nexo causal entre os eventos a que o grupo foi exposto e o desfecho da saúde final dessas pessoas.

Ou seja, utilizando dados coletados 4372 pessoas da comunidade de Framingham (Massachusstes) durante o período de 1991 a 2001, os pesquisadores avaliaram se o hábito de beber açúcar ou bebidas artificialmente adoçadas estava associado ao risco de AVC ou demência.

No abstract (resumo) do estudo, além de resumirem o propósito, o método e os resultados do trabalho, os cientistas concluem dizendo que no qual os autores concluem queO consumo de refrigerantes artificialmente adoçado foi associado a um maior risco de AVC e demência”.

Com esta conclusão impressa na primeira página do estudo a maior parte das publicações ateram-se ao impacto desta afirmação e publicaram suas matérias sobre o tema com manchetes como a do portal UOL: Refrigerante dietético triplica risco de AVC e demência, segundo estudo.

Mas o que diz a ciência

A leitura completa, criteriosa e atenta de todo o estudo fez com que a equipe Drops concluísse que a manchete do UOL é insustentável do ponto de vista científico.

Os resultados do estudo demonstram correlação, mas não comprovam causa e efeito. No geral, ao levar-se em conta todos os fatores de saúde e estilo de vida que poderiam ter uma influência sobre os resultados (fatores de confusão), os pesquisadores realmente não encontraram nenhuma ligação entre as bebidas artificialmente adoçadas e o risco de demência e derrame. Os números relatados na mídia vieram de um modelo que não foi ajustado para todos os fatores de confusão, como diabetes, que poderiam explicar parte da correlação.

As páginas 6 e 7 do trabalho listam ainda diversas limitações do estudo como por exemplo a ausência de minorias que limita a generalização dos resultados; a natureza observativa do estudo, o que impede de inferir ligações causais entre consumo de bebidas artificialmente adoçadas e os riscos de derrame e demência; o uso de auto-relatos para obter dados de ingestão dietética que pode induzir ao erro nas estimativas, uma vez que os entrevistados podem não se lembrar exatamente das bebidas consumidas durante  o ano anterior.

Por fim, apesar dos autores mencionarem na parte inicial do trabalho que o consumo de refrigerantes artificialmente adoçado foi associado a um maior risco de AVC e demência”, eles também dizem ao longo do texto que “pesquisas futuras são necessárias para replicar nossos achados e investigar os mecanismos subjacentes ao relatório associações”.

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