Remédio para gastrite, úlcera e refluxo dobra risco de câncer?

Medicamentos como o omeprazol e o pantoprazol são comuns no tratamento de refluxo e úlceras estomacais. Porém, um artigo publicado pela Gazeta Online afirma que esses remédios podem dobrar o risco de câncer. Será que isso é verdade? A DROPS verificou!

 


QUEM DISSE? Gazeta Online

O QUE DISSE?  Remédio para gastrite, úlcera e refluxo dobra risco de câncer 1

QUANDO DISSE? 01/11/2017

CHECAGEM: INSUSTENTÁVEL

A afirmação de que “remédio para gastrite, ulcera e refluxo dobra risco de câncer” implica uma relação de causa e efeito. Entretanto, esse estudo encontrou apenas uma correlação, não permitindo identificar se o omeprazol (ou similares) foi realmente a causa do aumento do diagnóstico da doença no estudo citado. Outros fatores não avaliados, como o uso excessivo de bebidas alcoólicas, a obesidade e consumo de cigarros, podem ser responsáveis tanto pelo uso prolongado destes remedios, quanto pela maior incidência de câncer.


Contexto:

O omeprazol, pantoprazol e similares são parte de uma classe de drogas denominada Inibidores de Bomba de Próton (IBPs). Esses medicamentos inibem a secreção de ácido pelo estômago2, permitindo o tratamento de doenças como úlceras, refluxo e infecções pela bacteria H. pylori.

Segundo a Federação Brasileira de Gastroenterologia3, “os IBPs revolucionaram o tratamento das doenças ácido dependentes, trazendo resultados excelentes para a cura e a qualidade de vida dos seus portadores”.

Porém, existe uma certa preocupação sobre a segurança do uso contínuo4 de IBPs para o manejo de doenças gástricas. Um dos questionamentos5 sobre o uso a longo prazo seria que a ação potente dos IBPs poderia atrasar o diagnóstico de câncer gástrico ou acelerar o desenvolvimento da doença. Essa suspeita foi principalmente uma consequência de alguns estudos com animais6, e ainda não tem confirmação definitiva em humanos.

Em 2014, uma análise sistemática feita pelo grupo Cochrane7 não encontrou evidências claras de que, em humanos, o uso a longo prazo de IBPs promova o desenvolvimento de lesões pré-cancerosas no estômago. Entretanto, os autores indicam que mais estudos são necessários para avaliar essa relação, devido à baixa qualidade das evidências disponíveis.  

Assim, ainda não existe um consenso científico se o uso contínuo de IBPs pode ou não aumentar o risco de câncer. Também não se sabe exatamente em que condições isso poderia ocorrer ou mesmo se o suposto “aumento” seria clinicamente relevante. O estudo reportado pela Gazeta – publicado em 2017 na revista Gut8 – está longe de ser uma resposta absoluta.



O que diz a ciência:

No estudo em questão8, os pesquisadores de Hong Kong acompanharam pessoas que haviam sido tratadas para a infecção com H. pylori. Essa infecção bacteriana pode causar sintomas parecidos com refluxo e drogas da classe dos IBPs são usadas no tratamento. Segundo os resultados da pesquisa, aqueles que tomaram IBPs por um longo tempo tiveram uma maior chance de serem diagnosticados com câncer gástrico.

Entretanto, com esse tipo de estudo é impossível saber se os IBPs foram realmente a causa do aumento do diagnóstico da doença. Por exemplo, é possível que uma pessoa que consuma muito álcool tenha que usar IBPs por mais tempo. Assim, o álcool pode ter sido a causa do câncer, e não o medicamento. É sempre bom lembrar que correlação não implica causa e efeito.

Uma avaliação detalhada do estudo pelo Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido9 (NHS) indica que a infecção com H. pylori também é um fator de risco para câncer gástrico. Isso causa complicações na interpretação dos resultados.

Além disso, o NHS afirma que os pacientes não devem dar grande enfase a esse estudo pois proporcionalmente o risco é muito pequeno: o uso a longo prazo de IBPs foi relacionado com apenas 4 casos a mais de câncer a cada 10 mil pessoas (por ano).

A Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), por sua vez, divulgou uma nota sobre o estudo3. A organização tambem afirmou que essa pesquisa não permite sugerir uma relação de causa e efeito entre os IBPs e o câncer gástrico.

Além disso, a FBG apontou que os grupos experimentais de pacientes “não foram comparáveis em relação aos fatores de risco para câncer gástrico, tais como, dieta, história familiar e estado socioeconômico. Bem como, não foram avaliados outros fatores de aumento de prevalência do câncer gástrico, como, fumantes, uso excessivo de bebidas alcoólicas e obesidade”. A nota também indica que a taxa de câncer gástrico em Hong Kong é uma das mais elevadas no mundo, sendo maior que a do Brasil.

 

 

 

 

Referências (acesso em 03/07/2018):
  1. https://www.gazetaonline.com.br/bem_estar_e_saude/2017/11/remedio-para-gastrite-ulcera-e-refluxo-dobra-risco-de-cancer-1014105878.html
  2. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/HSE_URM_IBP_1204.pdf
  3. http://www.fbg.org.br/Publicacoes/noticia/detalhe/114
  4. http://www.cff.org.br/sistemas/geral/revista/pdf/70/083a088_farmacoterapAutica.pdf
  5. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11123484
  6. http://doi.org/10.1136/gut.2010.229286
  7. http://www.cochrane.org/CD010623/UPPERGI_effect-of-the-long-term-use-of-proton-pump-inhibitors-on-the-rate-of-pre-cancerous-lesions-in-the-stomach
  8. http://doi.org/10.1136/gutjnl-2017-314605
  9. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmedhealth/behindtheheadlines/news/2017-11-06-acid-reflux-drugs-linked-to-increased-stomach-cancer-risk/

 

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