O anti-inflamatório diclofenaco pode causar problemas circulatórios?

O diclofenaco é um anti-inflamatório amplamente conhecido e vendido. No Brasil, o medicamento é de fácil acesso uma vez que não requer prescrição médica para compra. No último mês de setembro a Revista Encontro divulgou uma matéria na qual afirma que o “diclofenaco pode causar problemas cardiovasculares, diz estudo”. Notícias muito parecidas foram publicadas em dezenas de outros sites.

Mas será que esta informação é verdadeira? A DROPS verificou.

QUEM DISSE? Revista Encontro1

QUANDO DISSE? 05/09/2018 

O QUE DISSE? “Diclofenaco pode causar problemas cardiovasculares, diz estudo”.

O diclofenaco é um anti-inflamatório não esferoidal (AINE), com ação analgésica e anti-inflamatória, amplamente receitado desde a década de 1980. Pode ser comprado sem prescrição médica, pois não há obrigatoriedade da mesma no Brasil.

Antes de serem colocados à venda, todos os medicamentos passam por um longo período de pesquisas. No Brasil, após terem seu registro para venda aprovado, os medicamentos devem apresentar uma série de documentos, dentre os quais está a bula, onde as possíveis reações adversas identificadas são listadas. Após o início da comercialização, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) continua monitorando os medicamentos, através do recebimento de notificações de “reações” aos produtos (efeitos adversos) que podem ser feitas tanto por profissionais de saúde como pelos próprios pacientes. Este procedimento tem o nome de Farmacovigilância.

Na bula do diclofenaco, os efeitos cardiovasculares são informados tanto na versão profissional2 como na versão ao paciente3. Estes efeitos podem ocorrer particularmente quando doses elevadas são usadas por um longo período, podendo estarem associados com aumento no risco de eventos cardiovasculares graves (incluindo infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral). Na bula, também consta que o diclofenaco não é recomendado a pacientes que tenham doença cardiovascular estabelecida (insuficiência cardíaca congestiva, doença cardíaca isquêmica, doença arterial periférica) ou hipertensão não controlada. Sendo assim, a investigação das condições de saúde dos pacientes, antes da prescrição de diclofenaco (ou outros AINEs) é uma medida extremamente importante, para a avaliação do risco-benefício para saúde dos mesmos .

Os riscos destas reações adversas já são bem conhecidos e caracterizados pela ciência 4, 5, 6. O estudo mencionado7 na matéria não é o primeiro a mostrar tais efeitos, mas traz como diferencial o objetivo, avaliar o risco de doenças cardiovasculares, iniciadas pelo uso de diclofenaco em comparação com outros medicamentos tradicionalmente usados, como paracetamol, ibuprofeno, entre outros.

Portanto, é VERDADEIRA a afirmação de que “o diclofenaco pode causar problemas cardiovasculares, segundo um estudo”, MAS este efeito adverso já era amplamente conhecido, o que não fica claro no título da reportagem.

Além disso, vale ressaltar que o objetivo da pesquisa citada pela Revista Encontro era a comparação de riscos associados do uso de diferentes analgésicos e alterações cardiovasculares, uma vez que as reações adversas a esta classe de medicamentos já era conhecida. Desta forma, apesar da informação ser verdadeira, o enfoque da matéria carece de contextualização.

 

 

 

 

 

Referências (acesso em 17/10/2018):
  1. https://www.revistaencontro.com.br/canal/atualidades/2018/09/diclofenaco-pode-causar-problemas-cardiovasculares-diz-estudo.html
  2. http://www.anvisa.gov.br/datavisa/fila_bula/frmVisualizarBula.asp?pNuTransacao=18188592016&pIdAnexo=3525035
  3. https://static-webv8.jet.com.br/drogaosuper/Bulas/7896714221519.pdf
  4. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3676195/
  5. https://www.gov.uk/drug-safety-update/diclofenac-new-contraindications-and-warnings
  6. https://www.accessdata.fda.gov/drugsatfda_docs/label/2009/019201s038lbl.pdf
  7. https://www.bmj.com/content/362/bmj.k3426

 

 

 

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